14/02/2020

Roteiristas iniciantes: como entrar no mercado audiovisual

O Brasil não possui uma indústria audiovisual como a existente nos EUA e em outros lugares. Apesar disso, o mercado brasileiro está em crescimento e a Lei da TV Paga aumentou a demanda por profissionais da área do audiovisual. Mas continua em pauta a seguinte questão: que caminho seguir para conseguir entrar no mercado audiovisual brasileiro?

O que mais se ouve dizer por aí é que não existe uma fórmula, ou uma forma fixa que funcione para todos, falando especialmente para roteiristas. No entanto, alguns sites e portais, como o Writer's Room 51 , por exemplo, tem dicas relevante aos novos roteiristas que desejam ingressar no mercado brasileiro.

Em uma entrevista com a roteirista e produtora Bia Crespo, intitulada "Como Navegar no Mercado de Roteiro", você pode conhecer a trajetória dela em busca da mudança de função, de produtora à roteirista e como ela fez seus primeiros contatos dentro do mercado, compartilhando dicas muito relevantes.

Bia Crespo - Writer's Room 51

Em outro post da Writer's Room 51, "como fazer bons contatos no mercado audiovisual", o produtor Brian Medavoy compartilha seu plano de networking, dividido em três fases:


  • 1ª - Criar uma Lista
  • 2ª - Pesquisa
  • 3ª - Entrar em contato


Cada fase é explicada em detalhes no post, vale a pena conferir e colocar em prática. E para completar, Bill Labonia explica como abordar produtores neste artigo publicado em seu site, Roteirista Empreendedor, onde ele também fala sobre a ferramenta chamada carta de apresentação. Em outro artigo ainda ele explica como criar um currículo de roteirista, com um modelo para se inspirar.

Bill Labonia - Roteirista Empreendedor













E-mail de Apresentação

O vídeo abaixo foi produzido para o mercado literário, no entanto, as dicas ensinadas valem para qualquer área de trabalho. A partir dos quinze minutos de vídeo, a autora, a editora Flávia Iriarte, explica e apresenta um modelo de e-mail de apresentação com base em técnicas de marketing que ajudam a captar a atenção do interlocutor. Informação muito útil a qualquer profissional de qualquer área.


Com as dicas dos posts acima é possível traçar um caminho de entrada para o mercado audiovisual brasileiro. Se você já tentou algo assim ou tem uma dica diferente para contribuir com quem está iniciando carreira, compartilhe nos comentários.

08/11/2019

Dicas de Organização para Editores

Gustavo Fonseca escreveu um post esplêndido: Dicas para editores - Organize sua vida, onde fala sobre o trabalho anterior ao da edição, o trabalho de organizar a vida e os arquivos dos editores. O infográfico abaixo foi criado com base nesse artigo. Não deixe de conferir o post completo AQUI.

Se você deseja mais conhecimento acerca da edição e montagem, pode visitar o post do André Sarti: "Conheça os tipos de cortes e melhore sua técnica de edição" e o artigo "Paralelismo vs Alternância - Dedicando um olhar sobre uma das grandes controvérsias da montagem entre teóricos e críticos" do Fábio Luis Rockenbach.



Para mais conteúdo sobre edição e montagem cinematográfica, siga meu perfil no Pinterest, clicando AQUI.

04/11/2019

O Despertar das Corujas

Meyerheim: Versteckspiel im Wald

Desde criança eu nutria um profundo fascínio e curiosidade por um tipo específico de aves, as corujas. Na verdade sou fascinada por elas até hoje. Naquela época, porém, houve uma feliz ocasião em que me envolvi numa pequena aventura infantil, na qual tive a oportunidade de contemplar um fenômeno da natureza que mais tarde batizei de “o despertar das corujas”.

Eu tentava observar essas aves quase todos os dias, nos finais de tarde. Posicionava-me no mesmo lugar, cuja paisagem ficou gravada em minha memória como uma pintura num quadro. Era um corredor de chão batido que seguia por vários metros à frente, bifurcando-se ao final. À esquerda desse corredor havia um forno de secar tabaco, abandonado há anos. Ele tinha uma pequena janelinha retangular, emoldurada por um ipê amarelo.

À direita desse corredor um imenso parreiral recebia os últimos raios de sol da tarde. Após a bifurcação, no final do corredor, ficava a estrebaria. Depois dela, o potreiro, de onde mamãe conduzia uma vaca até o estábulo, depois sentava-se sobre um toco de madeira, amarrava as pernas do animal e começava a ordenhar. Eu via essa movimentação enquanto aguardava pelo pôr do sol e por minha amiga, minha única e melhor amiga de infância, que sempre prestigiava minhas aventuras.

Quando ela finalmente chegou nos posicionamos no corredor, quase embaixo da janelinha do forno de tabaco. Eu sabia que pelo menos uma criatura morava dentro do forno. Já tentara muitas vezes observá-la durante o dia, mas ao olhar pela abertura, não via mais que sombras se movendo na penumbra. Esperava, então, ver a ave sair com a chegada do crepúsculo.

E não demorou muito. Logo um grito rouco ecoou de dentro da velha construção e nós duas, crianças a postos, de olhos fitos na escuridão que emanava da janelinha, finalmente recebemos nossa recompensa. Três segundos, foi o tempo que a criatura levou para sair voando pela janela e seguir na direção do potreiro. A acompanhamos com o olhar até onde foi possível. Era uma coruja branca, grande, provavelmente uma coruja das torres.

Passado esse primeiro momento de enlevo, outro ruído despertou nossa atenção novamente para o forno abandonado. Havia outra coruja lá e esta, ao invés de partir imediatamente, pousou na janela, como que para ser admirada. Somente instantes mais tarde, abriu suas asas e despontou para o céu, também na direção do campo. Eu sentia-me como um personagem em meio a uma grande aventura. Mas o espetáculo ainda não terminara.

Do campo vinham numerosas corujas voando em nossa direção, pequeninas e amarronzadas, corujas buraqueiras. Vinham de todas as direções, reunindo-se sob o céu crepuscular. Hipnotizadas pela imagem do céu tomado de aves, quase incrédulas do espetáculo que se apresentava diante de nós, chegamos ao êxtase quando uma delas pousou perto de nós.

Imediatamente empreendemos uma louca perseguição na tentativa de pegar a coruja. A pequena ave dava voos rasantes e logo adiante pousava, como que nos atraindo para ela. No entanto, tinha a penumbra a seu favor. Apesar do fervoroso desejo de ter em mãos uma daquelas aves, tudo o que conseguimos foi embrenhar-nos no meio do taquaral.

Já era noite. Mamãe acabara sua tarefa e nos chamava para retornar. Com um rápido cochicho combinamos abandonar a caçada à coruja e começamos a brincar de esconde-esconde, escondendo-nos de mamãe. Era uma brincadeira corriqueira, nos esconder dos adultos. Movimentando-nos pela penumbra, sem deixar que ela nos visse, a vigiavamos como o predador que espreita a sua caça.

Incapaz de nos localizar, chamou uma segunda vez. Na completa escuridão, nos movimentamos novamente em torno dela, sem deixar que nos visse. Chamou pela terceira vez. Sem ouvir resposta, ajuntou uma varinha do chão e começou a batê-la ritmadamente contra a perna. Aquele era o sinal de que a brincadeira acabara.

Então saímos do esconderijo e nos aproximamos cautelosamente. Vendo-nos ainda questionou “não escutaram que eu chamei?”, o silêncio foi nossa resposta. Dalí seguimos, eu me despedi de minha amiga que, virando a curva atrás de nossa casa, partiu. Eu e mamãe entramos em casa. Era o fim de mais um dia na roça, um dia especial, onde vivi uma de minhas poucas, mas verdadeiras alegrias de infância.

28/08/2019

Causa Ganha

A Leiteira — Johannes Vermeer

As duas viviam sozinhas na casa. Mãe e filha. A filha não tinha mais que doze anos de idade. Já fazia quase um ano que me mudara para aquela vizinhança, de forma que já conhecia a rotina das duas. Aquela menina não brincava. Vez ou outra eu a via lendo debaixo da sombra do ingazeiro que ficava nos fundos da casa. Gostava de livros, pois sempre tinha vários ao seu redor, espalhados sobre a grama. Mas esse divertimento era imediatamente interrompido sempre que a mãe chegava.

No instante em que a mulher aparecia nos fundos da casa, a menina recolhia seus livros e começava a perambular pra lá e pra cá num contínuo realizar de tarefas. Trabalhava como gente grande, no entanto, não era capaz de alcançar o coração da mãe. Por mais que realizasse cada tarefa com dedicação e capricho, a minuciosa inspeção materna sempre revelava falhas. Nada agradava aquela mulher.

Com a chegada do ano novo, convidou-me para uma confraternização em sua casa. Era a primeira vez que as visitava. Quando lá cheguei encaminhou-me à sala, onde estavam os outros convidados. Percebi que era a última a chegar. Como dizem, os que moram mais perto são os que sempre se atrasam. Um burburinho animado enchia o cômodo, que era modesto, arrumado e limpo. Havia poucas fotografias sobre a estante. Da mulher e da filha, em molduras separadas. Nenhuma fotografia do pai.

Ao ver que todos os convidados estavam devidamente assentados a mulher começou a citar ordens para a filha. Primeiro mandou que esquentasse água para o chimarrão e, separadamente, para o café. A menina atendeu prontamente dirigindo-se à cozinha. A mulher conversou algumas palavras quando percebeu que a filha estava de volta. Perguntou, então, se a cuia já estava limpa. Essa era uma tarefa implícita, não deveria ter de dizê-la. A menina deu meia volta e retornou à cozinha.

Com o chimarrão em mãos e café quente sobre a mesinha de centro da sala, a mulher disparou nova ordem. Era preciso cortar a cuca e servir as visitas. E assim a menina o fazia. Alguns minutos mais tarde, ordenou que ela repetisse o processo. E que não se esquecesse de oferecer café também! E assim, numa sucessão de ordenanças, aquela mãe tentava desesperadamente mostrar que criou bem a filha, para ser empregada, não filha.

Após servir os convidados até estarem satisfeitos, a menina pegou um pedaço de cuca para si, deixando o prato sobre a mesinha de centro. Restaram nele apenas dois pedaços. A mãe viu aquilo e imediatamente ordenou que ela fosse cortar mais, não era educado deixar um prato vazio na sala. Descuidada, a menina deixou escapar “espera mãe”, quase inaudível. Desejava apenas terminar de comer seu pedaço de cuca na companhia das visitas.

Mas foi atingida em cheio pelo olhar fuzilador da mãe, seguido de um sussurro nervoso “depois a gente conversa”. Rapidamente a pequena deixou seu pedaço de lado, levantou-se e foi cumprir a ordem, trazendo outro prato cheio de cuca. Depois disso não retornou mais à sala. Ao final da tarde, muito graciosamente, a mulher despediu os convidados. Percorri os pouquíssimos metros que separavam nossas casas quando ouvi seus gritos. Ela repreendia a filha por ter-lhe retrucado, desobedecendo na frente das visitas.

Quando a menina completou a maioridade já trabalhava fora. Aos finais de semana a mãe esperava que a filha ficasse em casa e fizesse todo o trabalho doméstico que se acumulara durante a semana. Mas a jovem, desobedecendo-a, saía para passear com o namorado. Perder o controle sobre a filha deixava a mulher cada vez mais amargurada.

Num sábado cinzento, enquanto a jovem menina preparava um canteiro na horta, a mãe parou ao seu lado com a máquina de cortar grama a postos. Exigia pressa, queria ver a grama cortada antes de a chuva começar. A moça preparava o canteiro calmamente e em absoluto silêncio. Ao plantar as últimas mudinhas trovejou e os primeiros pingos de chuva começaram a cair.

Irada, a mãe olhou para o belo canteiro de hortaliças e sibilou “tu plantou muito perto, não vai produzir nada”. A jovem, ignorando-a, começou a recolher suas ferramentas. Ofendida com o descaso, a mãe parou-se na frente dela, impedindo sua passagem. Os pingos de chuva desciam de sua testa enrugada enquanto gritava com a filha. Num ímpeto de raiva, a jovem bradou “chega”! Era sua demissão.

Petrificada, a mulher ouviu a filha anunciar que seu serviço de muleta acabava ali. Disse-o e não voltou atrás, para desespero da mãe, que não aceitava tal atitude de rebeldia. Tentou ainda, por alguns dias, colocar a filha nos eixos. Como não conseguiu foi falar com o namorado dela, derramando a ele todas as suas queixas. Esperava que o rapaz entendesse e assim, seriam dois contra um. Não funcionou. O rapaz não só defendeu a jovem como reforçou sua atitude. Empertigada, a mãe retirou-se, como um patrão ofendido pela causa ganha do empregado.

OBS: Crônica publicada originalmente na Revista Medium

24/06/2019

Último Desejo

By The Death Bed, 1896 por Edvard Munch
By The Death Bed, 1896 por Edvard Munch

Meu gato contraiu a leucemia felina. Nos seus últimos dias projetava as costelas pra cima e pra baixo em busca de ar. Tentava comer, mas a comida não parava em seu estômago, então começou a recusá-la. Observando a situação degradante do animalzinho pensava em dar-lhe um golpe de misericórdia. Vê-lo morrendo de fome aos poucos já se tornara insuportável.

Na véspera de sua morte arrastou-se para dentro do canil da vizinha, onde a cachorra que quase o assassinara anos antes dormia tranquilamente. O considerei um ato suicida! Em vida fora um gato arredio. Não gostava de ser paparicado nem acariciado. Quando adoeceu, surpreendentemente, começou a procurar colo e carinho. Creio que eram seus últimos desejos.

Curiosamente essa situação lembrou-me do meu avô. Diagnosticado com algum problema no coração, tratou-se por mais de um ano. Para provocar a esposa, tomava seus medicamentos com um gole de Velho Barreiro[i]. Percebendo a piora constante, buscou nova opinião médica. O diagnóstico mudou para câncer de pulmão em estágio avançado.

O breve tratamento quimioterápico, que se revelou mais destrutivo que benéfico, deixou o velho de cama. Esforçava-se para conseguir respirar. Sempre fora magricela, mas atingiu seu auge durante a doença. Era um saco de pele e ossos, que uma tarde despencou da cama. Um doloroso gemido alertou a mim e minha mãe. O colocamos de volta. Por sorte, não quebrou nenhum osso.

Com a evolução da doença passou a ser alimentado por uma sonda. Apesar disso, pedia por um prato de comida. Queria sentir o gosto dos alimentos. Era doloroso para minha mãe negar o pedido, mas ele não podia. Engasgar-se-ia com a comida e com o catarro de seus pulmões, que estavam se decompondo.

Minha avó preparava mesas fartas. Arroz, feijão, carne de panela com muito molho, aipim frito, batatas cozidas, saladas diversas. Vez por outra se acrescentavam chucrute e linguiças cozidas. Em seguida as sobremesas. Sagu com vinho, pêssegos cozidos, doce de ameixas, compotas de quase todas as frutas existentes no pomar. Aos domingos tínhamos também “kartofellsalat”[ii] e cucas para o café da tarde.

Não creio que algum médico ou nutricionista indicasse a dieta. Mas havia algo especial. Ao meio dia todos deixavam de lado os seus afazeres. Quem estava na lavoura retornava. Quem trabalhava no galpão se dirigia à cozinha. Meu avô dependurava o chapéu atrás da porta. Os cães, que sempre o seguiam, deitavam-se na frente da casa, esperando-o. Todos sentavam nos grandes bancos de madeira feitos para aquela mesa de família.

O relacionamento dos meus avós era problemático. A verdade é que não dividiam a cama há muito tempo, mas preocupavam-se em manter as aparências. Quando meu avô desejava atingir a esposa, recusava a sobremesa. Almoçava e levantava-se da mesa, partindo. Ela entendia o gesto e ficava furiosa. No meio da tarde ouvia-se o tilintar de talheres. Alguém estava parado na frente da geladeira aberta. Era meu avô comendo sobremesa escondido.

Não sei se ele refletiu sobre suas atitudes em vida, pois num de seus últimos momentos de lucidez, conversou comigo. Recordo-me apenas de uma frase que ficou gravada em minha memória: “hoje eu tenho a comida que gostaria de comer, mas não posso comer”.

Alguém disse que perdemos a noção do sagrado. E as refeições são sagradas. Não deveriam ser cada vez mais rápidas e solitárias. Mal nutridos e inconscientes do momento presente perdemos a satisfação de compartilhar uma refeição, de sentir o sabor dos temperos, a textura dos alimentos. Hoje, frequentemente, desperdiçamos a oportunidade que para outros foi o último desejo não atendido.

[i] Velho Barreiro é uma marca de cachaça brasileira.

[ii] Kartofellsalat: salada de batatas com maionese, prato muito comum entre os descendentes de imigrantes alemães.

OBS: Crônica originalmente publicada na 12ª Edição da Revista LiteraLivre

16/05/2019

Sesta com Camundongos

Noon — Rest from Work (after Millet) — Pintura de Vincent van Gogh

Quando meus pais se divorciaram passamos a morar com meus avós maternos. Eles viviam em uma antiga casa de alvenaria com grandes janelas arredondadas e assoalho de madeira que rugia de acordo com as passadas. Lá tinha um antigo relógio cuco que dava as suas batidas a cada meia hora.

Todo sábado minha avó, Cecília, dava corda no relógio. Quem nos visitava afirmava jamais se acostumar com o barulho, mas eu não tinha problemas com ele. Durante o dia, nem ouvia mais as batidas. Á noite, deitada em minha cama no quarto, acompanhava o barulhinho do ponteiro, marcando a passagem do tempo.

Nessa época vivi um período de terrível insônia. Afirmo com absoluta certeza que aqueles que têm o benefício de deitar-se e adormecer são imensamente abençoados e privilegiados. Eu simplesmente não dormia. Quase nunca. Percorri em claro uma maratona de quase cinco dias e cinco noites sem pregar o olho.

Na ânsia de me ver adormecer, a mãe entupia-me de suco de maracujá. Nada! Hoje sei que o suco era cientificamente inútil. Como não dormia ficava em um estado de ansiedade tão crítico que sofria taquicardia. Sabia que precisava dormir, o desejava desesperadamente, mas o sono não vinha. Então eu chorava. Bastante.

Não era permitido assistir TV, qualquer ruído poderia acordar os velhos. Não era permitido sair para o pátio e perambular lá fora, os cães poderiam latir e isso acordaria alguém. Não era permitido nem manter uma luz acesa durante a madrugada para ler! Era somente escuridão e o barulho do relógio ecoando no silêncio da noite.

Minha mãe ajudava a cuidar da propriedade, mas decidiu trabalhar fora por algum tempo para contribuir financeiramente na casa. Eu e minha irmã, Carini, ficamos aos cuidados de Cecília. Todo santo dia ela mantinha o hábito da sesta. TODOS eram OBRIGADOS a fazê-lo. Que tormento! Já não bastavam as noites terrivelmente longas.

Como de costume não era permitido fazer outra coisa qualquer senão deitar-se. Carini também não apreciava as sestas, então, convencemos Cecília a nos deixar dormir sobre o imenso sofá de couro da sala. Ali podíamos ao menos observar a paisagem pelas grandes janelas laterais e sussurrar alguma conversa.

Na primeira tarde que ali passamos percebemos que não estávamos sozinhas. Ouvimos um ruído vindo debaixo de uma das poltronas de minha avó. Inertes, esperamos. Logo uma pequena movimentação surgiu. Eram dois camundongos que aproveitavam o silêncio da sesta para perambular por aí.

Procuravam avidamente por algum resto comestível. Qualquer ruído os fazia parar instantaneamente. Um deles ainda mantinha a patinha no ar, congelado como uma estátua. Com o cessar do ruído por alguns instantes, voltavam à vida, farejando sorrateiramente.

Era o brinquedo perfeito para duas crianças entediadas. Esperávamos Cecília iniciar seu ronco diário, para então, silenciosamente, roubar um pequenino pedaço de pão na cozinha, prendê-lo a um barbante e deixá-lo na frente da poltrona. Os camundongos se aproximavam cautelosos, pareciam saber que se tratava de uma armadilha.

Ao puxar o barbante, desapareciam rápidos como um raio. Alguns segundos em silêncio e retornavam farejando tudo o que vinha pela frente. Em seu esconderijo havia um buraquinho que os levava para debaixo do assoalho. Era impossível capturá-los.

Então começamos a deixar os farelos de pão soltos na frente da poltrona. Os camundongos se aproximavam e esperavam. Ao ver que não havia perigo, agarravam um farelinho e partiam rapidamente, retornando segundos depois para ver se havia mais. Por quase dois anos alimentamos aqueles camundongos. Eles foram a companhia que tornou suportáveis as sestas de cada dia.

OBS: Crônica originalmente publicada na Revista Literalivre.

02/05/2019

Memórias de Infância

The White Orchard, April 1888, obra de Vincent van Gogh

Com treze anos de idade eu descobri o segredo de uma convivência pacífica com minha avó materna. Quando ela acordava com um sorriso no rosto, seria um dia perfeito, com uma doce avó conversadeira. Se despertava séria, a distância seria melhor solução. Num desses dias, de cara fechada, quase levei uma surra ao ajudar a descascar batatas. Tudo porque cismou que eu as desperdiçava por não ser capaz de descascá-las com a mesma finura que ela o fazia.

Minha mãe assumiu o serviço e eu corri para o pomar, meu refúgio e local de ternas lembranças. Do corredor frio e úmido entre a parede da casa e do banheiro (que era uma novidade, já que até pouco usavam apenas a patente[1]), chegava-se até o forno de tijolos — ainda sinto o cheiro dos pães e cucas que minha avó assava ali — atrás dele um portãozinho dava para a imensa horta, encercada para que as galinhas não a destruíssem.

O galinheiro ficava ao lado da horta e tinha uma pequena repartição vazia, onde eu e meu tio Miguel tentamos abrigar e criar uma ninhada de patos selvagens que encontramos abandonada no campo. Uma noite choveu muito, o rio transbordou e, pela manhã, quando as águas baixaram os patinhos tinham sumido.

Em frente ao galinheiro um butiá era ornamentado com sacos de estopa debaixo de seus cachos. Meu avô apanhava as frutas maduras que caíam para a sua produção de cachaça. Uma parte das frutas era confiscada por mim e outra por uma infinidade de pássaros que as apreciavam muito.

A poucos metros do butiá iniciava um corredor de aromas e sabores. Era emoldurado por duas pereiras enormes e seguia com laranjas, bergamotas, limões, pêssegos, ameixas, uma clareira com abacaxis, ladeados por uma selva de bananeiras, sempre recheadas de cachos. Muitas tardes passei em cima do pé de pera, pensando na vida.

A jabuticabeira era um espetáculo á parte. Do seu tronco liso e descascado eclodiam milhares de bolinhas verdes, que iam enegrecendo com o tempo. Todo o tronco cobria-se das frutinhas saborosas. Meu tio, Egon, visitava-nos com a família e sentávamos debaixo daquela árvore, comendo jabuticaba direto do pé e conversando.

Bananas ornamentais exibiam seus cachos avermelhados. Um pinus se erguia como que tentando alcançar o céu. As pitangueiras pareciam decoradas para uma festa. Milhares de frutinhas coloridas pendiam dos galhos, eu catava as mais escuras para comer. Raramente, jogávamos futebol debaixo das pitangueiras, dois coqueiros próximos serviam como goleira.

Aos primeiros sinais do inverno, minha atenção se voltava para a imponente Araucária, esperando cair algum dos cachos de pinhões. Meu avô os deitava em cima da chapa quente do fogão, para assar, depois comíamos tomando mate. Eu rondava todos os dias aquela araucária, não apenas pelos pinhões, também em busca das cascas coloridas que despencavam da árvore.

Eram os “rabos-de-palha[2]”. Faziam seus ninhos bem no topo da araucária. Vez por outra, um ovo tragicamente acabava no chão. Via-se o resto da substância dentro da casca, quando já não um pássaro quase formado. Uma pena! Quando a ninhada eclodia, derrubavam as cascas. Eram azuis e brancas, de tonalidades diferentes, pequenas peças artesanais da natureza.

Na garagem do meu avô, os pequenos sabiás começavam a sair dos ninhos. Sua iniciação se dava com uns pulinhos pra lá e pra cá, sobre os caibros da garagem. Depois desciam até o chão, explorando a área em volta até que, cansados de terra, estufavam o peito e ensaiavam as asas. Não demorava muito para inclinarem-se e alçarem voo.

Na época das chuvas comíamos cerejas e observávamos a enchente debaixo de uma goiabeira. Aquele líquido alaranjado, sujo, rasgava o campo com violência, arrastando consigo tudo o que podia agarrar. Quando a água baixava, eu e meu tio verificávamos o estrago. Vez ou outra, algum novilho jazia no fundo do rio, estufado. Os corvos realizavam a limpeza.

Nos dias de faceirice da minha avó, a refrescante sombra da nogueira era nosso refúgio. Tinha uma copa larga, que formava um imenso círculo sombreado, com seus galhos estendidos quase tocando a porta da casa. Debaixo dela, um manacá de cheiro, uma camélia e azaleias. Minha avó remendava outro pedaço de pano sobre as velhas calças do marido. Remendava e reclamava do estrago. O guarda roupa estava repleto de peças novas. Todas doadas quando os dois faleceram.

Não tenho fotografia nem filme desse lugar. Gostaria de tê-lo fotografado ou filmado. Mas o teria aproveitado tanto? Hoje as pessoas produzem lembranças, mas esquecem de apreciar os momentos. Terão muitas imagens para rever, mas haverá significado nelas? Lembrarão-se dos detalhes que não puderam ser capturados? Minha pequena missão nessa crônica é recordar e tentar gravar em palavras uma boa memória da minha infância.

[1] Banheiro de madeira que não possuía ainda a “tábua” (assento em madeira) nem a descarga.

[2] Nome popular de uma ave de grande ocorrência na região Sul do Brasil.

OBS: Crônica publicada originalmente na Revista Medium.