29/10/2014

Um Novo Amanhecer


O longa metragem Aurora, uma produção de F.W. Murnau, de 1927, é considerado por muitos cineastas como um grande exemplo de produção cinematográfica de qualidade. Embora o filme não tenha sido sucesso de bilheteria na época de seu lançamento, certamente é um exemplo real de qualidade em produção audiovisual.

Murnau é um dos cineastas que fizeram parte do Expressionismo Alemão. O Gabinete do Dr. Caligari é uma de suas obras que inaugura o movimento alemão, que tinha como características principais os enredos que giravam em torno da insanidade, temas de reflexão, além de cenários e luzes expressivas e, em alguns filmes, fortes elementos de monumentalismo, como os vistos em Metrópolis, de Fritz Lang, outro cineasta desse movimento.

Murnau também produziu outros filmes expressionistas, como Nosferatu, em 1922, Fausto, de 1926, entre outros. Mas percebemos em Aurora uma sutil fuga dos ideais do expressionismo, talvez devido ao fato desse filme ter sido produzido em Hollywood, em um contexto histórico diferente. Aurora se diferencia já pelo tema, um romance, bem diferente da insanidade retratada no Expressionismo Alemão. A luz continua sendo um elemento muito bem trabalhado, mas com um aspecto mais leve do que em O Gabinete do Dr. Caligari, por exemplo.

Assistir a filmes em preto e branco e mudos não era um hábito costumeiro, mas ao ser apresentada a essa obra prima, mudei minha concepção quanto a histórias bem contadas. Estamos acostumados a ver um estereótipo de produção cinematográfica que, supostamente, seria o que há de melhor no ramo, mas essa produção deixou claras algumas questões sobre o cinema atual.

Murnau conta uma história que pode ser encarada como muito simples, um casamento feliz que entrou em crise, uma traição, as pazes. No entanto, a forma como aborda as personagens e suas vidas dão um significado especial à narrativa. A vida no campo, os afazeres do marido, da esposa, a crise, o estereótipo de esposa subserviente, que no final se mostra mais independente do que se poderia imaginar, dão um toque especial na caracterização psicológica das personagens.

Além disso, a força que as duas mulheres têm para manipular o homem e levá-lo a fazer as suas vontades é uma verdadeira insinuação do poder feminino, tanto para o bem quanto para o mal. O descontrole demonstrado pelo marido, entre outros detalhes de comportamento dão uma verdadeira análise psicológica dos protagonistas.

A caracterização do filme inicia desde a produção das personagens. A esposa do fazendeiro veste branco, é loira e tem um riso angelical, demonstrando a bondade, ou o ideal de mulher pura. A amante é morena e veste-se com trajes escuros, tem uma maquiagem mais pesada, dando o tom da destruição (de lares). A primeira metade do filme é de uma fotografia mais escura, mais pesada, partindo para o final do filme, notamos que a luz parece querer brilhar mais. Um ponto importante é o momento em que a amante está indo embora e o sol está nascendo, marcando um novo início.

Embora inicialmente o tom do filme seja de suspense, tragédia, em muitos momentos somos levados ao riso com situações hilárias, como a perseguição ao porco, por exemplo. A história nos leva por um caminho, que parece ser sombrio, mas na metade do filme somos levados para uma direção mais alegre, a reconciliação do casal e aí somos apanhados com uma suposta tragédia, que se revela de maneira diferente no final. Uma verdadeira reviravolta narrativa, mas muito bem construída.



Outro ponto importante do filme é a edição. Foram usados muitos recursos interessantes para demonstrar os momentos de sonho, ou de pensamentos das personagens, fusões e sobreposições que acentuaram a dramaticidade de algumas cenas. A atuação traz também uma marca com a qual não se 
trabalha mais com tanto enfoque atualmente, os planos detalhe e a expressão facial das personagens.  
Sem dúvida nenhuma, uma obra que não pode ficar de fora de qualquer lista, seja de estudantes de cinema, de profissionais do ramo ou apaixonados pela sétima arte.

Aurora é uma mistura de drama, comédia e suspense, com a estética do Expressionismo Alemão. Foi o primeiro filme da Fox que teve uma trilha sonora previamente gravada. Além disso, apesar de ser lançado no ano de surgimento do cinema falado – 1927 – o filme ainda é da era muda, mas contém caracteres de falas tratados com efeitos especiais, como a palavra “afogada”, que aparece escorrendo na tela. Uma obra imperdível! Confira.

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