13/11/2017

Tipos de Tramas: Minitrama ou Minimalista



Morangos Silvestres, 1957, escrito e dirigido por Ingmar Bergman
A trama minimalista mantém boa parte das características da trama clássica, mas as causas externas de conflito são reduzidas. O foco está no conflito interno dos personagens. O protagonista tende a ser passivo, não são as decisões dele que impulsionam a trama, ele é apenas levado pela situação. E o final da trama minimalista geralmente fica em aberto. O filme Morangos Silvestres, de 1957, escrito e dirigido por Ingmar Bergman é o exemplo perfeito de minitrama.

No filme o protagonista Isak narra boa parte da história e é quem se descreve inicialmente como alguém meticuloso e difícil de conviver. É também através de sua narração, de seu monólogo, que conhecemos mais sobre sua vida. Ele tem um filho casado com Marianne e que também é médico, além disso, Isak será agraciado com um prêmio no dia seguinte.

Isak dorme e tem um sonho desagradável, onde ele se encontra em um caixão. Acorda e apressadamente muda os planos e decide viajar de carro. O sonho parece ser o incidente incitante de Isak, pois é na viagem de carro que ele se depara com muitas lembranças e sonhos.

A caracterização do personagem continua na hilária conversa, ou discussão, ente ele e a empregada.  A conversa reforça o caráter implacável de Isak e também nos revela que a empregada já trabalha a 40 anos com o médico, o que lhe deu a liberdade de tamanha sinceridade na conversa entre os dois. Outro ponto que chama a atenção é a presença constante do som, principalmente dos relógios, uma demonstração sutil do tempo que passa.

Ele inicia a viagem de carro acompanhado da nora. É impressionante e quase teatral a sinceridade do diálogo que ouvimos durante essa sequência. Ali, a partir das palavras da nora, conhecemos um pouco mais sobre o protagonista. Descobrimos que foi um homem bom e trabalhador, para os outros, mas cruel e indiferente com os seus, incapaz de demonstrar sensibilidade e afeto.

Os dois fazem uma parada na antiga casa de veraneio da família, onde o canteiro de morangos silvestres desperta as lembranças da infância de Isak. Sabemos de sua paixão pela prima Sara, que está indecisa entre Isak e seu irmão. Mas, como anteriormente o protagonista nos apresentou sua esposa Karin, sabemos que ele não foi o escolhido de Sara. Isak é desperto das lembranças por uma voz feminina. Uma jovem chamada Sara, muito parecida com a prima da infância. Sara pega carona com Isak e Marianne, juntamente com dois rapazes, os quais ela revela estarem apaixonados por ela.  Uma situação muito semelhante ao passado de Isak.

O grupo segue viagem até ocorrer um acidente. Um casal perde o controle do carro. Isak e sua "turma" os ajudam e lhes dão carona. Logo percebemos que o casal é muito infeliz, que se odeiam. Eles seguem viagem junto por algum tempo, mas não param de discutir até que Marianne os deixa na beira da estrada. Isak narra-nos seu início de carreira na cidade de Lund, onde ainda mora sua mãe. A forma como o velho médico é tratado no posto de gasolina, reforça a ideia de benevolência dele para com a população enquanto médico. O filme joga com as informações e a caracterização do personagem, ora mostrando como ele foi uma pessoa boa para os de fora, ora mostrando como foi cruel com sua família.

No almoço, os jovens começam a discutir sobre a existência de Deus e, pela cantiga de Isak e Marianne, sabemos que eles partilham de uma fé, ou, pelo menos, de um conhecimento acerca de Deus. É interessante observar que os dois jovens apaixonados por Sara são o extremo oposto. Anders quer ser Pastor e é quem começa o assunto tocando uma canção sobre a Criação e Deus, já Viktor não entende como alguém pode crer em Deus. Os  dois parecem representar Isak e seu irmão no passado, disputando Sara.

Isak e Marianne visitam a mãe dele, uma senhora rabugenta, fria e insensível. A velha confunde Marianne com a falecida nora Karin, deixando claro seu desprezo por ela.  O elemento tempo é destacado nessa sequência, quando a velha senhora conta que todos os filhos dela já morreram, menos Isak e no momento em que ela mostra o relógio sem ponteiros, o que mexe com Isak. O diálogo entre filho e mãe é riquíssimo e nos revela muito sobre a velha.

 Ao seguir a viagem Isak adormece e entramos numa sequência de sonhos. Primeiro, ele está no canteiro de morangos silvestres (com a aparência atual, envelhecida) e sua prima Sara(com a aparência jovem), lhe mostra um espelho e pede que o olhe. Ela afirma que ele deveria saber das coisas, por ser um professor a tanto tempo, mas não sabe de nada. Possivelmente ela está tentando mostrar a Isak o que ele se tornou. Depois ele a vê cuidar do bebê de Sigbritt, exatamente como a mãe havia descrito na cena anterior em suas lembranças. Em seguida, Isak observa Sara e o irmão, casados, vivendo juntos.

Em sequência Isak está batendo em uma porta onde um homem o recebe e o faz passar por vários testes, atestando-o como incompetente no ofício médico, apesar de sabermos que na realidade é diferente. O homem o acusa de culpa e Isak fica diante de uma cena de seu passado onde descobrimos sua insensibilidade e desprezo pela esposa, Karin. A condenação, diz o homem, é a solidão, o que nos remete ao início do filme, onde o próprio Isak descreve sua vida como solitária.

Ao acordar do sonho vê que estão parados na estrada. Ele conta a Marianne que os sonhos parecem querer lhe dizer que ele está morto, apesar da vida. Marianne fica impressionada e então conta sobre a gravidez, a rejeição do marido pela criança e seu desejo de morrer. Ela faz a associação entre Isak, sua mãe e Evald, que está se tornando frio igual ao pai. Ela teme que se tornem um casal como o que viajou com eles, um claro exemplo do que foi o casamento de Isak e o cenário da infância de Evald. Nesse momento vemos uma transformação em progresso no protagonista, ao perguntar se pode ajudar em algo.

Durante a cerimônia de homenagem, Isak revela-nos através do monologo narrado que foi este o momento que ele decidiu registrar estas lembranças. O filme parece um diário em primeira pessoa dos acontecimentos e dramas internos de uma família disfuncional.  O arco de transformação de Isak continua quando ele pede desculpas a empregada, que acha que ele está doente. Logo após, sugere que se chamem apenas pelos seu primeiro nome, ela recusa, mas deixa a porta entreaberta, sugestivamente, caso ele precise de algo.

Isak conversa  com o filho e descobre que ele e Marianne vão reatar, provavelmente. Ele tenta perdoar a dívida do filho quando Marianne entra. Ele a agradece por ter vindo junto e declara que gosta muito dela. É um arco de transformação completo, de um velho ranzinza insensível para alguém que aprende a observar as necessidades do outro, a pedir perdão e tomar decisões melhores. 

Nós temos uma narrativa sem grandes pontos de virada ou clímax. Que não se encaixa perfeitamente em nenhum paradigma, pois é uma estrutura minimalista, concentrada no mundo interno do protagonista e das personagens ao seu redor. Trabalha com as lembranças e os sonhos e mantém um final em aberto, típico das minitramas.





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