26/10/2018

Documentários de Vida Animal têm Roteiro?

Imagem do documentário Todas as Manhãs do Mundo, de Lawrence Wahba

Documentários possuem, na grande maioria, duas fases de roteiro. A primeira fase consiste na elaboração do projeto que será utilizado para as filmagens. A segunda fase, posteriormente, se dá na ilha de edição, onde o roteiro de um documentário é, de fato, finalizado. Barry Hampe chama a primeira fase de tratamento:


"O Tratamento é geralmente entendido como um esboço (outline) do documentário. Ele descreve o conteúdo do documentário e o estilo em que ele deve ser filmado. Sobre o que se trata o documentário. O que será incluído. Como será filmado. E como ele se parecerá. Inclui todos os elementos – as pessoas, os lugares, as coisas e os eventos – que devem fazer parte do documentário. E mostra como o documentário será organizado." - Escrevendo um documentário - Barry Hampe

Essa premissa vale para todos os tipos de documentário, incluindo os de vida animal. Rubens Rewald, Professor Doutor da ECA/USP explica o processo que originou o roteiro do documentário Todas as Manhãs do Mundo em uma entrevista concedida a ABRA:

"... foi um trabalho intenso, quase de ficção, pela criação desses dois personagens, Sol e Lua, não só em termos de falas como também de traços de personalidade. O que mostra que Documentários podem ter sim roteirizações complexas e detalhistas, o que amplia de forma relevante o possível espectro de ação de um roteirista na área audiovisual." - Rubens Rewald

Veja a entrevista completa AQUI.


O documentarista Cesar Leite afirma:

"Trabalhando com natureza, temos que estar espertos quando gravando em campo pois as coisas podem mudar bastante. Mesmo assim é super importante ir a campo com o conhecimento da história que será contada no documentário. E melhor ainda, se possível, ir com roteiro escrito e se necessário, adaptar as gravações em cima disso. Dá mais segurança e deixa a equipe toda mais conectada também."

Cesar cedeu o modelo de dois roteiros da série Vizinhos Selvagens."O do Urso Polar foi escrito em cima de imagens de arquivo, ficando mais fiel ao resultado final. E  Ladrões da Costa Rica foi escrito antes de gravarmos, tendo que adaptar um pouco." 

Roteiro Urso Polar 
Roteiro Ladrões da Costa Rica

O resultado você assiste em Vizinhos Selvagens - Futura Play.

Os biólogos franceses Claude Nuridsany e Marie Perennou filmaram "Microcosmos: Fantástica Aventura da Natureza" com o objetivo de  romper a tradição do documentário ao privilegiar o fascínio e renunciar ao didatismo. Claude concedeu uma entrevista à Folha de S.Paulo onde explica o processo de produção e o roteiro desenvolvido para o projeto. 

Folha - O filme apresenta uma espécie de dramaturgia. Há cenas de amor, tensão, luta. Como foi o trabalho com o roteiro?

Nuridsany - Foi muito longo. Ele teve como base anotações que eu e Marie fizemos durante anos sobre fatos da natureza que nos pareciam emocionantes e que se aproximavam da vida e do comportamento humanos. Foi um roteiro construído a partir de acontecimentos não-ficcionais e espontâneos: não podíamos incitar os animais a fazer coisas.

Escolhemos nossos personagens entre os insetos como um romancista escolhe os personagens de sua obra: buscando aqueles que são mais universais. Captamos momentos da vida cotidiana dos animais para gerar simpatia e identificação: os insetos são vistos como iguais. Mas sem cair numa forma de antropomorfismo.

Leia a entrevista completa AQUI.


O roteirista e produtor executivo Matheus Colen publicou "6 dicas para escrever um argumento de documentário". No artigo ele cita o documentário Tiger: Spy In The Jungle (2008), que usou em sua abordagem câmeras escondidas na floresta, posicionadas por elefantes, para conseguir captar cenas inéditas da vida dos tigres. Colen também fala sobre a abordagem do tema:

Como a sua história vai ser contada? De quem é o ponto de vista: do documentarista ou do personagem? Como você vai utilizar os personagens para explorar o tema? Serão entrevistas simples? Vai acompanhar a rotina deles durante algum tempo? Vai observá-los a distância? Ou vai interagir com eles diretamente, aparecendo na frente da câmera? Vai registrar uma paisagem natural por um determinado tempo até conseguir aquela imagem do predador que procura? Ou vai atuar como um caçador, entrando na mata atrás da imagem do animal em seu habitat?

DICA: No portal do NETLABTV você pode ler  "O Poder de um bom roteiro para séries de não ficção: cinco cases para inspirar", com ótimas dicas para quem quer aprofundar seu conhecimento em produções documentais. 




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