Memórias de Infância

por - 10:25

The White Orchard, April 1888, obra de Vincent van Gogh

Com treze anos de idade eu descobri o segredo de uma convivência pacífica com minha avó materna. Quando ela acordava com um sorriso no rosto, seria um dia perfeito, com uma doce avó conversadeira. Se despertava séria, a distância seria melhor solução. Num desses dias, de cara fechada, quase levei uma surra ao ajudar a descascar batatas. Tudo porque cismou que eu as desperdiçava por não ser capaz de descascá-las com a mesma finura que ela o fazia.

Minha mãe assumiu o serviço e eu corri para o pomar, meu refúgio e local de ternas lembranças. Do corredor frio e úmido entre a parede da casa e do banheiro (que era uma novidade, já que até pouco usavam apenas a patente[1]), chegava-se até o forno de tijolos — ainda sinto o cheiro dos pães e cucas que minha avó assava ali — atrás dele um portãozinho dava para a imensa horta, encercada para que as galinhas não a destruíssem.

O galinheiro ficava ao lado da horta e tinha uma pequena repartição vazia, onde eu e meu tio Miguel tentamos abrigar e criar uma ninhada de patos selvagens que encontramos abandonada no campo. Uma noite choveu muito, o rio transbordou e, pela manhã, quando as águas baixaram os patinhos tinham sumido.

Em frente ao galinheiro um butiá era ornamentado com sacos de estopa debaixo de seus cachos. Meu avô apanhava as frutas maduras que caíam para a sua produção de cachaça. Uma parte das frutas era confiscada por mim e outra por uma infinidade de pássaros que as apreciavam muito.

A poucos metros do butiá iniciava um corredor de aromas e sabores. Era emoldurado por duas pereiras enormes e seguia com laranjas, bergamotas, limões, pêssegos, ameixas, uma clareira com abacaxis, ladeados por uma selva de bananeiras, sempre recheadas de cachos. Muitas tardes passei em cima do pé de pera, pensando na vida.

A jabuticabeira era um espetáculo á parte. Do seu tronco liso e descascado eclodiam milhares de bolinhas verdes, que iam enegrecendo com o tempo. Todo o tronco cobria-se das frutinhas saborosas. Meu tio, Egon, visitava-nos com a família e sentávamos debaixo daquela árvore, comendo jabuticaba direto do pé e conversando.

Bananas ornamentais exibiam seus cachos avermelhados. Um pinus se erguia como que tentando alcançar o céu. As pitangueiras pareciam decoradas para uma festa. Milhares de frutinhas coloridas pendiam dos galhos, eu catava as mais escuras para comer. Raramente, jogávamos futebol debaixo das pitangueiras, dois coqueiros próximos serviam como goleira.

Aos primeiros sinais do inverno, minha atenção se voltava para a imponente Araucária, esperando cair algum dos cachos de pinhões. Meu avô os deitava em cima da chapa quente do fogão, para assar, depois comíamos tomando mate. Eu rondava todos os dias aquela araucária, não apenas pelos pinhões, também em busca das cascas coloridas que despencavam da árvore.

Eram os “rabos-de-palha[2]”. Faziam seus ninhos bem no topo da araucária. Vez por outra, um ovo tragicamente acabava no chão. Via-se o resto da substância dentro da casca, quando já não um pássaro quase formado. Uma pena! Quando a ninhada eclodia, derrubavam as cascas. Eram azuis e brancas, de tonalidades diferentes, pequenas peças artesanais da natureza.

Na garagem do meu avô, os pequenos sabiás começavam a sair dos ninhos. Sua iniciação se dava com uns pulinhos pra lá e pra cá, sobre os caibros da garagem. Depois desciam até o chão, explorando a área em volta até que, cansados de terra, estufavam o peito e ensaiavam as asas. Não demorava muito para inclinarem-se e alçarem voo.

Na época das chuvas comíamos cerejas e observávamos a enchente debaixo de uma goiabeira. Aquele líquido alaranjado, sujo, rasgava o campo com violência, arrastando consigo tudo o que podia agarrar. Quando a água baixava, eu e meu tio verificávamos o estrago. Vez ou outra, algum novilho jazia no fundo do rio, estufado. Os corvos realizavam a limpeza.

Nos dias de faceirice da minha avó, a refrescante sombra da nogueira era nosso refúgio. Tinha uma copa larga, que formava um imenso círculo sombreado, com seus galhos estendidos quase tocando a porta da casa. Debaixo dela, um manacá de cheiro, uma camélia e azaleias. Minha avó remendava outro pedaço de pano sobre as velhas calças do marido. Remendava e reclamava do estrago. O guarda roupa estava repleto de peças novas. Todas doadas quando os dois faleceram.

Não tenho fotografia nem filme desse lugar. Gostaria de tê-lo fotografado ou filmado. Mas o teria aproveitado tanto? Hoje as pessoas produzem lembranças, mas esquecem de apreciar os momentos. Terão muitas imagens para rever, mas haverá significado nelas? Lembrarão-se dos detalhes que não puderam ser capturados? Minha pequena missão nessa crônica é recordar e tentar gravar em palavras uma boa memória da minha infância.

[1] Banheiro de madeira que não possuía ainda a “tábua” (assento em madeira) nem a descarga.

[2] Nome popular de uma ave de grande ocorrência na região Sul do Brasil.

OBS: Crônica publicada originalmente na Revista Medium.

Você também pode gostar destes...

0 Comments