16/05/2019

Sesta com Camundongos

Noon — Rest from Work (after Millet) — Pintura de Vincent van Gogh

Quando meus pais se divorciaram passamos a morar com meus avós maternos. Eles viviam em uma antiga casa de alvenaria com grandes janelas arredondadas e assoalho de madeira que rugia de acordo com as passadas. Lá tinha um antigo relógio cuco que dava as suas batidas a cada meia hora.

Todo sábado minha avó, Cecília, dava corda no relógio. Quem nos visitava afirmava jamais se acostumar com o barulho, mas eu não tinha problemas com ele. Durante o dia, nem ouvia mais as batidas. Á noite, deitada em minha cama no quarto, acompanhava o barulhinho do ponteiro, marcando a passagem do tempo.

Nessa época vivi um período de terrível insônia. Afirmo com absoluta certeza que aqueles que têm o benefício de deitar-se e adormecer são imensamente abençoados e privilegiados. Eu simplesmente não dormia. Quase nunca. Percorri em claro uma maratona de quase cinco dias e cinco noites sem pregar o olho.

Na ânsia de me ver adormecer, a mãe entupia-me de suco de maracujá. Nada! Hoje sei que o suco era cientificamente inútil. Como não dormia ficava em um estado de ansiedade tão crítico que sofria taquicardia. Sabia que precisava dormir, o desejava desesperadamente, mas o sono não vinha. Então eu chorava. Bastante.

Não era permitido assistir TV, qualquer ruído poderia acordar os velhos. Não era permitido sair para o pátio e perambular lá fora, os cães poderiam latir e isso acordaria alguém. Não era permitido nem manter uma luz acesa durante a madrugada para ler! Era somente escuridão e o barulho do relógio ecoando no silêncio da noite.

Minha mãe ajudava a cuidar da propriedade, mas decidiu trabalhar fora por algum tempo para contribuir financeiramente na casa. Eu e minha irmã, Carini, ficamos aos cuidados de Cecília. Todo santo dia ela mantinha o hábito da sesta. TODOS eram OBRIGADOS a fazê-lo. Que tormento! Já não bastavam as noites terrivelmente longas.

Como de costume não era permitido fazer outra coisa qualquer senão deitar-se. Carini também não apreciava as sestas, então, convencemos Cecília a nos deixar dormir sobre o imenso sofá de couro da sala. Ali podíamos ao menos observar a paisagem pelas grandes janelas laterais e sussurrar alguma conversa.

Na primeira tarde que ali passamos percebemos que não estávamos sozinhas. Ouvimos um ruído vindo debaixo de uma das poltronas de minha avó. Inertes, esperamos. Logo uma pequena movimentação surgiu. Eram dois camundongos que aproveitavam o silêncio da sesta para perambular por aí.

Procuravam avidamente por algum resto comestível. Qualquer ruído os fazia parar instantaneamente. Um deles ainda mantinha a patinha no ar, congelado como uma estátua. Com o cessar do ruído por alguns instantes, voltavam à vida, farejando sorrateiramente.

Era o brinquedo perfeito para duas crianças entediadas. Esperávamos Cecília iniciar seu ronco diário, para então, silenciosamente, roubar um pequenino pedaço de pão na cozinha, prendê-lo a um barbante e deixá-lo na frente da poltrona. Os camundongos se aproximavam cautelosos, pareciam saber que se tratava de uma armadilha.

Ao puxar o barbante, desapareciam rápidos como um raio. Alguns segundos em silêncio e retornavam farejando tudo o que vinha pela frente. Em seu esconderijo havia um buraquinho que os levava para debaixo do assoalho. Era impossível capturá-los.

Então começamos a deixar os farelos de pão soltos na frente da poltrona. Os camundongos se aproximavam e esperavam. Ao ver que não havia perigo, agarravam um farelinho e partiam rapidamente, retornando segundos depois para ver se havia mais. Por quase dois anos alimentamos aqueles camundongos. Eles foram a companhia que tornou suportáveis as sestas de cada dia.

OBS: Crônica originalmente publicada na Revista Literalivre.

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