Causa Ganha

por - 11:25

A Leiteira — Johannes Vermeer

As duas viviam sozinhas na casa. Mãe e filha. A filha não tinha mais que doze anos de idade. Já fazia quase um ano que me mudara para aquela vizinhança, de forma que já conhecia a rotina das duas. Aquela menina não brincava. Vez ou outra eu a via lendo debaixo da sombra do ingazeiro que ficava nos fundos da casa. Gostava de livros, pois sempre tinha vários ao seu redor, espalhados sobre a grama. Mas esse divertimento era imediatamente interrompido sempre que a mãe chegava.

No instante em que a mulher aparecia nos fundos da casa, a menina recolhia seus livros e começava a perambular pra lá e pra cá num contínuo realizar de tarefas. Trabalhava como gente grande, no entanto, não era capaz de alcançar o coração da mãe. Por mais que realizasse cada tarefa com dedicação e capricho, a minuciosa inspeção materna sempre revelava falhas. Nada agradava aquela mulher.

Com a chegada do ano novo, convidou-me para uma confraternização em sua casa. Era a primeira vez que as visitava. Quando lá cheguei encaminhou-me à sala, onde estavam os outros convidados. Percebi que era a última a chegar. Como dizem, os que moram mais perto são os que sempre se atrasam. Um burburinho animado enchia o cômodo, que era modesto, arrumado e limpo. Havia poucas fotografias sobre a estante. Da mulher e da filha, em molduras separadas. Nenhuma fotografia do pai.

Ao ver que todos os convidados estavam devidamente assentados a mulher começou a citar ordens para a filha. Primeiro mandou que esquentasse água para o chimarrão e, separadamente, para o café. A menina atendeu prontamente dirigindo-se à cozinha. A mulher conversou algumas palavras quando percebeu que a filha estava de volta. Perguntou, então, se a cuia já estava limpa. Essa era uma tarefa implícita, não deveria ter de dizê-la. A menina deu meia volta e retornou à cozinha.

Com o chimarrão em mãos e café quente sobre a mesinha de centro da sala, a mulher disparou nova ordem. Era preciso cortar a cuca e servir as visitas. E assim a menina o fazia. Alguns minutos mais tarde, ordenou que ela repetisse o processo. E que não se esquecesse de oferecer café também! E assim, numa sucessão de ordenanças, aquela mãe tentava desesperadamente mostrar que criou bem a filha, para ser empregada, não filha.

Após servir os convidados até estarem satisfeitos, a menina pegou um pedaço de cuca para si, deixando o prato sobre a mesinha de centro. Restaram nele apenas dois pedaços. A mãe viu aquilo e imediatamente ordenou que ela fosse cortar mais, não era educado deixar um prato vazio na sala. Descuidada, a menina deixou escapar “espera mãe”, quase inaudível. Desejava apenas terminar de comer seu pedaço de cuca na companhia das visitas.

Mas foi atingida em cheio pelo olhar fuzilador da mãe, seguido de um sussurro nervoso “depois a gente conversa”. Rapidamente a pequena deixou seu pedaço de lado, levantou-se e foi cumprir a ordem, trazendo outro prato cheio de cuca. Depois disso não retornou mais à sala. Ao final da tarde, muito graciosamente, a mulher despediu os convidados. Percorri os pouquíssimos metros que separavam nossas casas quando ouvi seus gritos. Ela repreendia a filha por ter-lhe retrucado, desobedecendo na frente das visitas.

Quando a menina completou a maioridade já trabalhava fora. Aos finais de semana a mãe esperava que a filha ficasse em casa e fizesse todo o trabalho doméstico que se acumulara durante a semana. Mas a jovem, desobedecendo-a, saía para passear com o namorado. Perder o controle sobre a filha deixava a mulher cada vez mais amargurada.

Num sábado cinzento, enquanto a jovem menina preparava um canteiro na horta, a mãe parou ao seu lado com a máquina de cortar grama a postos. Exigia pressa, queria ver a grama cortada antes de a chuva começar. A moça preparava o canteiro calmamente e em absoluto silêncio. Ao plantar as últimas mudinhas trovejou e os primeiros pingos de chuva começaram a cair.

Irada, a mãe olhou para o belo canteiro de hortaliças e sibilou “tu plantou muito perto, não vai produzir nada”. A jovem, ignorando-a, começou a recolher suas ferramentas. Ofendida com o descaso, a mãe parou-se na frente dela, impedindo sua passagem. Os pingos de chuva desciam de sua testa enrugada enquanto gritava com a filha. Num ímpeto de raiva, a jovem bradou “chega”! Era sua demissão.

Petrificada, a mulher ouviu a filha anunciar que seu serviço de muleta acabava ali. Disse-o e não voltou atrás, para desespero da mãe, que não aceitava tal atitude de rebeldia. Tentou ainda, por alguns dias, colocar a filha nos eixos. Como não conseguiu foi falar com o namorado dela, derramando a ele todas as suas queixas. Esperava que o rapaz entendesse e assim, seriam dois contra um. Não funcionou. O rapaz não só defendeu a jovem como reforçou sua atitude. Empertigada, a mãe retirou-se, como um patrão ofendido pela causa ganha do empregado.

OBS: Crônica publicada originalmente na Revista Medium

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