04/11/2019

O Despertar das Corujas

Meyerheim: Versteckspiel im Wald


Um dos maiores privilégios de minha vida foi ter passado a infância no interior. A vida na roça é calma e exuberante, cheia de silêncios e de grandes movimentações. Uma vida diferente, com dias de extensa monotonia e outros repletos de oportunidades, especialmente para as crianças.

Foi nessa época que pude contemplar um pequeno fenômeno da natureza que ficou impresso em minha memória. Uma pequena aventura infantil que ocorreu em uma tarde de verão ensinou-me a admirar a beleza e a majestade da Criação. E presenteou-me também com um profundo fascínio e curiosidade por um tipo específico de aves, as corujas.

Eu procurava observá-las quase todos os fins de tarde, posicionando-me no mesmo lugar, onde via, dia após dia, a mesma paisagem: um corredor de chão batido que seguia por vários metros à frente, bifurcando-se ao final. À esquerda desse corredor havia um forno de secar tabaco, abandonado há anos. Ele era emoldurado por um ipê amarelo e tinha uma pequena janelinha retangular, objeto de minha especial atenção.

À direita um imenso parreiral era invadido pelos últimos raios de sol da tarde. No final do corredor, após a bifurcação, ficava a estrebaria. Atrás dela, o potreiro, de onde mamãe conduzia uma vaca até o estábulo, depois sentava-se sobre um toco de madeira, amarrava as pernas do animal e começava a tirar leite. Eu a via fazendo essa tarefa enquanto aguardava pelo pôr do sol e por minha amiga, minha única e melhor amiga de infância, que sempre prestigiava minhas aventuras.

Quando ela finalmente chegou nos posicionamos logo abaixo da janelinha do forno de tabaco. Eu sabia que pelo menos uma criatura morava lá dentro. Já tentara muitas vezes observá-la durante o dia, mas ao olhar pela abertura, não via mais que sombras se movendo na penumbra. Esperava então, ver a ave sair com a chegada do crepúsculo.

Sem demora, um grito rouco ecoou de dentro da velha construção e nós duas, crianças a postos, de olhos fitos na escuridão que emanava da janelinha, recebemos nossa recompensa. Três segundos, foi o tempo que a criatura levou para sair voando pela janela e seguir na direção do potreiro. A acompanhamos com o olhar até onde foi possível. Era uma coruja branca, grande, provavelmente uma coruja das torres.

Passado este primeiro momento de enlevo, outro ruído despertou nossa atenção para o forno abandonado. Havia outra coruja lá e esta, ao invés de partir imediatamente, pousou na janela, como que para ser admirada. Instantes mais tarde, abriu suas asas e despontou para o céu, também na direção do campo. Para nossas almas inocentes aquele era o auge de uma grande aventura. Mas o espetáculo ainda não terminara.

Do campo vinham numerosas corujas voando em nossa direção, pequeninas e amarronzadas, corujas buraqueiras. Vinham de todas as direções, reunindo-se sob o céu crepuscular. Hipnotizadas pela imagem do céu tomado de aves, quase incrédulas do espetáculo que se apresentava diante de nós, o despertar das corujas, ficamos em êxtase quando uma delas pousou perto de nós.

Imediatamente empreendemos uma louca perseguição na tentativa de pegar a coruja. A pequena ave dava voos rasantes e logo adiante pousava, como que nos atraindo para ela. No entanto, tinha a penumbra a seu favor. Apesar do fervoroso desejo de ter em mãos uma daquelas aves, não conseguimos capturá-la e acabamos embrenhadas no meio do taquaral.

Já era noite. Mamãe acabara sua tarefa e nos chamava para retornar. Com um rápido cochicho combinamos abandonar a caçada e começamos a brincar de esconde-esconde, escondendo-nos de mamãe. Movimentando-nos pela penumbra, sem deixar que ela nos visse, a vigiamos como o predador que espreita a sua caça. Incapaz de nos localizar, chamou uma segunda vez.

Observando-a nos movimentamos novamente em torno dela, sem deixar que nos visse. Ela chamou pela terceira vez. Sem ouvir resposta, ajuntou uma varinha do chão e começou a batê-la ritmadamente contra a perna. Aquele era o sinal de que a brincadeira acabara. Saímos então do esconderijo e nos aproximamos cautelosamente. Ela ainda questionou “não escutaram que eu chamei?”, o silêncio era nossa resposta.

Dalí seguimos. Eu me despedi de minha amiga que, virando a curva atrás de nossa casa, partiu. Eu e mamãe entramos em casa. Era o fim de mais um dia na roça, o cessar de mais um espetáculo da natureza, uma de minhas poucas, mas verdadeiras alegrias de infância.

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