Roteiro Audiovisual e Escrita Criativa

28/09/2020

Tributo a uma Amizade
9/28/20200 Comentários


Recolhendo Castanhas” – William Adolphe-Bouguereau (1825-1905) 

Conheço o real sentido da palavra amizade não porque fui uma grande amiga, mas porque a melhor delas fez parte da minha vida. Uma parceria fantástica, sempre pronta a participar de qualquer maluquice que eu inventava. Éramos uma dupla dinâmica, uma inventando ideias extravagantes e a outra fazendo todo o possível para que as loucuras se materializassem.


De vez em quando fazíamos um fogo de chão. Era nosso ritual particular, um momento de convívio e amizade longe dos problemas que eu tinha em casa. Eu partia de manhã rumo à casa da minha amiga e quando lá chegava a primeira coisa que fazíamos era uma lista de tudo o fosse necessário para realizar nosso fogo de chão. Eis aí o despertar do meu entusiasmo por listas!

O pai dela tinha um pequeno reboque, o qual deixava parado na frente da casa, já vazio, para que pudéssemos colocar nossas coisas. Levávamos tudo. Carne já picada, sal e tempero verde. Pratos e talheres, água e um pano de prato. Fósforos e paus de forquilha para pendurar a panela sobre o fogo. Depois de conferir se tudo o que constava na lista estava também no reboque, partíamos.

Eu puxava o reboque na frente e minha amiga, nos trechos necessários, o empurrava atrás enquanto nos dirigíamos ao potreiro seguindo por uma estradinha de chão. Poucos metros adiante, gansos nadavam num açude lamacento. Passando dali havia um pequeno bosque, onde as corujas buraqueiras nos espiavam detrás dos tocos caídos, perto de suas tocas. Logo depois estendia-se um imenso descampado, onde havia apenas uma grande árvore.

Era ali que estacionávamos o reboquinho cheio de tralhas. Minha amiga selecionava um toco de árvore para servir de banco e então estendia um pano sobre a grama, onde seria a mesa. Eu cravava os dois paus de forquilha no chão, transpassando o outro já com a panela pendurada. Em seguida começava a juntar gravetos, que encontrávamos aos montes ao redor da árvore e, por fim, acendia o fogo.

O menu geralmente era carreteiro. Enquanto o mesmo cozinhava, conversávamos. Eu tinha uma imaginação fértil e gostava de planejar e realizar coisas novas, então sugeri que cada uma começasse a escrever um diário, para anotar seus pensamentos e segredos e compartilhá-los num fogo de chão futuro. Se não me falha a memória, num deles, posterior, assim o fizemos.

Na época eu também acreditava que nossa amizade deveria ser melhor celebrada. Então expus um plano um pouco mais audacioso, fundar um Clube das Amigas. Neste clube, cada participante deveria ter uma carteirinha e teríamos uma lista de frequentadores. Em cada feriado do ano algum tipo de “evento” seria realizado. Poderíamos até desenhar um calendário de eventos próprio, para colar na parede.

Mas eis o mais audacioso, o dito clube teria uma sede, que seria uma casa na árvore. Eu até já tinha escolhido a árvore! (Não sei se a pequena laranjeira aguentaria, é uma pena não ter fotografia dela). Minha amiga adorou a ideia e sugeriu que fizéssemos um evento de inauguração. E como todo clube, eu reservava uma área vip, é claro, onde só eu e ela ficaríamos.

Uma de minhas esperanças na época era que, com uma casa na árvore, mamãe nos deixaria dormir fora e poderíamos conversar até altas horas e observar corujas a noite inteira. Grandes planos de uma mente inocente! Eu sabia que esse era um empreendimento grande. Se papai não ajudasse a construí-la devido a situação em que se encontrava, eu pediria a um dos meus tios que morava perto e se ele também não ajudasse, eu mesma começaria a tal casa. Não haviam limitações para os meus planos.

Com o carreteiro pronto, comíamos ali mesmo, vendo as vacas pastando ao nosso redor tentando aproveitar uma parte da sombra que a árvore projetava. Depois de longas horas no campo, recolhíamos nossos pertences e voltávamos para casa, empurrando o pequeno reboque de volta. O pai de minha amiga sempre agradecia pelas sobras, as quais desfrutava com alegria.

Creio que fizemos o fogo de chão umas duas ou três vezes. Numa delas, ventava muito e foi hercúlea a tarefa de terminar de cozinhar o carreteiro. Por fim, o arroz ficou “al dente”. O clube das Amigas nunca saiu do papel. Pouquíssimo tempo depois fugimos de casa por causa da esquizofrenia de papai. Morando mais longe, eram raras as ocasiões em que via minha amiga e, por fim, a vida adulta e seus compromissos acabaram por selar nosso distanciamento. Da minha parte, permanece a amizade, mesmo que em memória e a gratidão por ter tido em minha vida uma amiga como V.
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17/08/2020

Doce Veneno
8/17/20200 Comentários

 

Henriëtte Ronner-Knip, Kitten’s Game, (ca. 1860)

Romualdo vivia sozinho. Desde que se tornara cadeirante, após um acidente de carro, transformou a ampla sala da frente em escritório, cozinha e sala de estar. Tinha ali sua mesa e materiais de trabalho, a televisão e seus livros, um frigobar e um armarinho de madeira onde guardava os mantimentos. Almoçava e jantava ali. Saía daquele ambiente apenas para ir ao banheiro e dormir, na sala imediatamente ao lado.

A luz natural daquele ambiente provinha de uma grande janela situada ao sul, com vistas para o gramado do vizinho. Romualdo observava a paisagem. Duas crianças brincavam alegremente com o gato do vizinho. Maldito gato. Romualdo odiava aquele animal. Não podia compreender como as pessoas eram capazes de amar um animal preguiçoso, bagunceiro e que solta pêlos por onde passa. Além disso, aquele felino em especial era capaz de destruir qualquer organização.

Certa feita, ao retornar do banheiro, Romualdo deu de cara com o bichano dormindo em cima de seus papéis na mesa de escritório. Berrou com o animal, que, assustado, pulou da mesa, mas não sem espalhar os papéis e anotações por toda a sala. Foi um sacrilégio para Romualdo ajuntar a papelada. Como odiava aquele gato.

O gato, ao contrário, parecia amá-lo. Seguidamente amanhecia esticado sobre a soleira da janela, que ficava semi aberta, tomando sol. Ronronava carinhosamente quando Romualdo se aproximava. O homem, porém, era incapaz de amar o felino. Logo que o alcançava, dava-lhe um bofete para espantá-lo. 

Quando finalmente deixou a paisagem dirigiu-se à mesa de escritório, localizada no outro lado do imenso salão. Notou, enquanto se dirigia até o outro lado, uma trilha de formigas que também atravessavam o cômodo até um pequeno orifício no rodapé atrás de sua mesa. Acompanhou a trilha, cuidando para não atropelar nenhuma formiga. 

Se algum animal deveria ser admirado, que fossem as formigas, pensava. Eram trabalhadoras incansáveis, como ele fora a vida inteira. Carregavam toda espécie de materiais, desde cadáveres de outros insetos até migalhas de alimento, limpando o ambiente. Eram organizadas e elegantes. Romualdo contemplava aquela marcha ritmada de pequenos soldados quando a campainha tocou. 

Era a empregada. Uma menina de catorze anos incompletos. Romualdo sabia ser ilegal contratar uma menor de idade, mas o fez depois de a mãe da menina, divorciada e com problemas financeiros, implorar que lhe desse uma chance. E fosse o acaso ou não aquela foi a única empregada com quem se entendeu. Fazia exatamente o que ele pedia e não mexericava em suas coisas, ao contrário das outras. Por causa de sua timidez extrema, quase não falava, o que agradava muito Romualdo, que detestava conversas fúteis. 

Enquanto ela varria o imenso cômodo Romualdo foi até o banheiro. Ao retornar flagrou-a sorridente brincando com o gato em seus braços. Estavam na frente da janela, o sol batia contra os dois revelando os pêlos do animal esvoaçando em torno dela e se espalhando pela sala. Irado com a visão, Romualdo gritou:

- Largue este animal imundo!

Assustada a menina deixou cair o gato, que de um pulo encontrou a saída pela janela. Já ela permaneceu ali, petrificada, com os olhos arregalados. Romualdo, passado algum tempo de constrangedor silêncio, pronunciou mansamente algumas palavras.

- Está tudo bem. É que eu não gosto de gatos. Disse o mais calmamente possível. 

Era a primeira vez que gritava com ela. Nunca houvera antes uma troca de farpas entre os dois. A menina, toda sem jeito, baixou a cabeça e continuou seus afazeres. Romualdo, no entanto, percebeu que a tinha assustado. Ela limpava o móvel encolhida e cabisbaixa, vez ou outra lançando um olhar de receio. Aquela era a única empregada com quem já se entendera e também a mais barata que já tivera. Se ficasse com medo talvez não retornasse mais. Precisava resolver esta questão. 

Dirigiu-se até a mesa do escritório e começou a revirar alguns papéis quando viu, pela janela, o gato brincando no gramado do vizinho. Aquele animal era a razão de toda a confusão. Como gostaria de livrar-se dele! Pensou por alguns instantes no assunto, a ideia se repetindo em sua mente, livrar-se dele, livrar-se dele, livrar-se dele. De repente chamou a menina. 

- Carla, poderia vir aqui um pouquinho? Falou delicadamente. 


A menina aproximou-se cautelosa, claramente receosa.

- Eu preciso de um imenso favor seu. Disse enquanto anotava a palavra “chumbinho” em um pedaço de papel. Você poderia ir até a mercearia aqui da esquina e me trazer o que está escrito aqui? É só entregar o bilhete ao atendente. Diga que é uma encomenda para mim.

A menina, tímida como um gato arredio, fez que sim e pegou o papel das mãos de Romualdo, que em seguida abriu a gaveta e alcançou-lhe algum dinheiro. 

- Com o dinheiro que sobrar quero que compre algo para você, um doce talvez. É um presente. Disse-o e tentou sorrir, na tentativa de amenizar a situação.

O rosto da menina pareceu aliviar-se um pouco. Logo saiu para cumprir a tarefa. Minutos depois, quando retornou, deixou dois embrulhos sobre a mesa. Um continha o granulado cinza encomendado e o outro uma rosquinha recheada com creme de leite. Romualdo chamou-a novamente. 

- Mas o doce era pra você.

- Sim, respondeu a menina. Com o troco pude comprar dois, este é seu. 

- Oh, obrigado! Disse meio sem jeito. Aceitou o doce para não cometer nenhuma desfeita, já que parecia ter recuperado a confiança da menina. 

À noite, logo depois dela sair, Romualdo partiu a rosquinha ao meio. Uma das metades preencheu cuidadosamente com o veneno e depositou-a sobre a soleira da janela semi aberta. A outra metade guardou em seu armarinho. 

Na manhã seguinte, preparou sua xícara de café e então vasculhou rapidamente com uma das mãos o armarinho em busca de torradas. Não as encontrou, mas esbarrou acidentalmente no que sobrara da rosquinha. Pegou-a e dirigiu-se até à janela. Esquadrinhava o gramado em busca do cadáver do gato. Não o avistou. Deu uma boa mordida na rosquinha, depois sorveu um grande gole de café. 

Deu mais uma boa olhada por todo o gramado. Nada. Comeu mais um pedaço da rosquinha e bebeu outro gole de café. Sentiu uma náusea, provavelmente o recheio não lhe caíra bem, era muito doce para o seu paladar. Levantou a xícara mais uma vez para tomar outro gole de café quando viu o gato, vivo, pulando atrás de uma borboleta. 

Seu olhar foi instintivamente de encontro à soleira da janela, onde depositara a metade envenenada da rosquinha. Restavam apenas farelos. Como era possível? Sentiu uma pontada no estômago. Notou, então, algumas formigas mortas em torno dos farelos. Tinha mais delas no chão, uma trilha de cadáveres que se iniciava ali e seguia pelo salão até o armarinho. 

Curioso, foi verificar. Quando abriu o armarinho, viu formigas mortas por toda parte, inclusive no local de onde tirara a rosquinha. Um terrível pensamento atravessou-lhe a mente. Atordoado, abriu rapidamente o pedacinho da rosquinha que ainda tinha nas mãos. O recheio também estava cheio de cadáveres. Apavorado, sentiu suas tripas se contorcendo, sua visão ficando embaçada. Tentou ainda alcançar o telefone sobre a mesa de escritório, mas inclinou-se muito e caiu da cadeira de rodas. No chão a escuridão o apanhou.


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14/02/2020

Roteiristas iniciantes: como entrar no mercado audiovisual
2/14/20200 Comentários
O Brasil não possui uma indústria audiovisual como a existente nos EUA e em outros lugares. Apesar disso, o mercado brasileiro está em crescimento e a Lei da TV Paga aumentou a demanda por profissionais da área do audiovisual. Mas continua em pauta a seguinte questão: que caminho seguir para conseguir entrar no mercado audiovisual brasileiro?

O que mais se ouve dizer por aí é que não existe uma fórmula, ou uma forma fixa que funcione para todos, falando especialmente para roteiristas. No entanto, alguns sites e portais, como o Writer's Room 51 , por exemplo, tem dicas relevante aos novos roteiristas que desejam ingressar no mercado brasileiro.

Em uma entrevista com a roteirista e produtora Bia Crespo, intitulada "Como Navegar no Mercado de Roteiro", você pode conhecer a trajetória dela em busca da mudança de função, de produtora à roteirista e como ela fez seus primeiros contatos dentro do mercado, compartilhando dicas muito relevantes.

Bia Crespo - Writer's Room 51

Em outro post da Writer's Room 51, "como fazer bons contatos no mercado audiovisual", o produtor Brian Medavoy compartilha seu plano de networking, dividido em três fases:


  • 1ª - Criar uma Lista
  • 2ª - Pesquisa
  • 3ª - Entrar em contato


Cada fase é explicada em detalhes no post, vale a pena conferir e colocar em prática. E para completar, Bill Labonia explica como abordar produtores neste artigo publicado em seu site, Roteirista Empreendedor, onde ele também fala sobre a ferramenta chamada carta de apresentação. Em outro artigo ainda ele explica como criar um currículo de roteirista, com um modelo para se inspirar.

Bill Labonia - Roteirista Empreendedor













E-mail de Apresentação

O vídeo abaixo foi produzido para o mercado literário, no entanto, as dicas ensinadas valem para qualquer área de trabalho. A partir dos quinze minutos de vídeo, a autora, a editora Flávia Iriarte, explica e apresenta um modelo de e-mail de apresentação com base em técnicas de marketing que ajudam a captar a atenção do interlocutor. Informação muito útil a qualquer profissional de qualquer área.


Com as dicas dos posts acima é possível traçar um caminho de entrada para o mercado audiovisual brasileiro. Se você já tentou algo assim ou tem uma dica diferente para contribuir com quem está iniciando carreira, compartilhe nos comentários.
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08/11/2019

Dicas de Organização para Editores
11/08/20190 Comentários
Gustavo Fonseca escreveu um post esplêndido: Dicas para editores - Organize sua vida, onde fala sobre o trabalho anterior ao da edição, o trabalho de organizar a vida e os arquivos dos editores. O infográfico abaixo foi criado com base nesse artigo. Não deixe de conferir o post completo AQUI.

Se você deseja mais conhecimento acerca da edição e montagem, pode visitar o post do André Sarti: "Conheça os tipos de cortes e melhore sua técnica de edição" e o artigo "Paralelismo vs Alternância - Dedicando um olhar sobre uma das grandes controvérsias da montagem entre teóricos e críticos" do Fábio Luis Rockenbach.



Para mais conteúdo sobre edição e montagem cinematográfica, siga meu perfil no Pinterest, clicando AQUI.

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04/11/2019

O Despertar das Corujas
11/04/20190 Comentários
Meyerheim: Versteckspiel im Wald

Desde criança eu nutria um profundo fascínio e curiosidade por um tipo específico de aves, as corujas. Na verdade sou fascinada por elas até hoje. Naquela época, porém, eu tentava observar essas aves quase todos os dias sempre nos finais de tarde, posicionando-me no mesmo lugar, cuja paisagem ficou gravada em minha memória como uma pintura num quadro. 

Era um corredor de chão batido que seguia por vários metros à frente, bifurcando-se ao final. À esquerda desse corredor havia um forno de secar tabaco, abandonado há anos. Ele tinha uma pequena janelinha retangular, emoldurada por um ipê amarelo. À direita desse corredor um imenso parreiral recebia os últimos raios de sol da tarde. Após a bifurcação, no final do corredor, ficava a estrebaria. Depois dela, o potreiro, de onde mamãe conduzia uma vaca até o estábulo, depois sentava-se sobre um toco de madeira, amarrava as pernas do animal e começava a ordenhar.

Eu via essa movimentação enquanto aguardava pelo pôr do sol e por minha amiga de infância, que sempre prestigiava minhas aventuras. Quando ela finalmente chegou nos posicionamos no corredor, quase embaixo da janelinha do forno de tabaco. Eu sabia que pelo menos uma criatura morava dentro do forno. Já tentara muitas vezes observá-la durante o dia, mas ao olhar pela abertura, não via mais que sombras se movendo na penumbra. Esperava, então, ver a ave sair com a chegada do crepúsculo. E não demorou muito.

Logo um grito rouco ecoou de dentro da velha construção e nós duas, crianças a postos, de olhos fitos na escuridão que emanava da janelinha, finalmente recebemos nossa recompensa. Três segundos, foi o tempo que a criatura levou para sair voando pela janela e seguir na direção do potreiro. A acompanhamos com o olhar até onde foi possível. Era uma coruja branca, grande, provavelmente uma coruja das torres.

Passado esse primeiro momento de enlevo, outro ruído despertou nossa atenção novamente para o forno abandonado. Havia outra coruja lá e esta, ao invés de partir imediatamente, pousou na janela, como que para ser admirada. Somente instantes mais tarde, abriu suas asas e despontou para o céu, também na direção do campo. Eu sentia-me como um personagem em meio a uma grande aventura. Mas o espetáculo ainda não terminara.

Do campo vinham numerosas corujas voando em nossa direção, pequeninas e amarronzadas, corujas buraqueiras. Vinham de todas as direções, reunindo-se sob o céu crepuscular. Hipnotizadas pela imagem do céu tomado de aves, quase incrédulas do espetáculo que se apresentava diante de nós, chegamos ao êxtase quando uma delas pousou perto de nós.

Imediatamente empreendemos uma louca perseguição na tentativa de pegar a coruja. A pequena ave dava voos rasantes e logo adiante pousava, como que nos atraindo para ela. No entanto, tinha a penumbra a seu favor. Apesar do fervoroso desejo de ter em mãos uma daquelas aves, tudo o que conseguimos foi embrenhar-nos no meio do taquaral.

Já era noite. Mamãe acabara sua tarefa e nos chamava para retornar. Com um rápido cochicho combinamos abandonar a caçada à coruja e começamos a brincar de esconde-esconde, escondendo-nos de mamãe. Era uma brincadeira corriqueira, nos esconder dos adultos. Movimentando-nos pela penumbra, sem deixar que ela nos visse, a vigiavamos como o predador que espreita a sua caça.

Incapaz de nos localizar, chamou uma segunda vez. Na completa escuridão, nos movimentamos novamente em torno dela, sem deixar que nos visse. Chamou pela terceira vez. Sem ouvir resposta, ajuntou uma varinha do chão e começou a batê-la ritmadamente contra a perna. Aquele era o sinal de que a brincadeira acabara.

Então saímos do esconderijo e nos aproximamos cautelosamente. Vendo-nos ainda questionou “não escutaram que eu chamei?” O silêncio era nossa resposta. Dalí seguimos. Me despedi de minha amiga que, virando a curva atrás de nossa casa, partiu. Era o fim de mais um dia na roça, um dia especial, onde vivi uma de minhas poucas, mas verdadeiras alegrias de infância.





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28/08/2019

Causa Ganha
8/28/20190 Comentários
A Leiteira — Johannes Vermeer

As duas viviam sozinhas na casa. Mãe e filha. A filha não tinha mais que doze anos de idade. Já fazia quase um ano que me mudara para aquela vizinhança, de forma que já conhecia a rotina das duas. Aquela menina não brincava. Vez ou outra eu a via lendo debaixo da sombra do ingazeiro que ficava nos fundos da casa. Gostava de livros, pois sempre tinha vários ao seu redor, espalhados sobre a grama. Mas esse divertimento era imediatamente interrompido sempre que a mãe chegava.

No instante em que a mulher aparecia nos fundos da casa, a menina recolhia seus livros e começava a perambular pra lá e pra cá num contínuo realizar de tarefas. Trabalhava como gente grande, no entanto, não era capaz de alcançar o coração da mãe. Por mais que realizasse cada tarefa com dedicação e capricho, a minuciosa inspeção materna sempre revelava falhas. Nada agradava aquela mulher.

Com a chegada do ano novo, convidou-me para uma confraternização em sua casa. Era a primeira vez que as visitava. Quando lá cheguei encaminhou-me à sala, onde estavam os outros convidados. Percebi que era a última a chegar. Como dizem, os que moram mais perto são os que sempre se atrasam. Um burburinho animado enchia o cômodo, que era modesto, arrumado e limpo. Havia poucas fotografias sobre a estante. Da mulher e da filha, em molduras separadas. Nenhuma fotografia do pai.

Ao ver que todos os convidados estavam devidamente assentados a mulher começou a citar ordens para a filha. Primeiro mandou que esquentasse água para o chimarrão e, separadamente, para o café. A menina atendeu prontamente dirigindo-se à cozinha. A mulher conversou algumas palavras quando percebeu que a filha estava de volta. Perguntou, então, se a cuia já estava limpa. Essa era uma tarefa implícita, não deveria ter de dizê-la. A menina deu meia volta e retornou à cozinha.

Com o chimarrão em mãos e café quente sobre a mesinha de centro da sala, a mulher disparou nova ordem. Era preciso cortar a cuca e servir as visitas. E assim a menina o fazia. Alguns minutos mais tarde, ordenou que ela repetisse o processo. E que não se esquecesse de oferecer café também! E assim, numa sucessão de ordenanças, aquela mãe tentava desesperadamente mostrar que criou bem a filha, para ser empregada, não filha.

Após servir os convidados até estarem satisfeitos, a menina pegou um pedaço de cuca para si, deixando o prato sobre a mesinha de centro. Restaram nele apenas dois pedaços. A mãe viu aquilo e imediatamente ordenou que ela fosse cortar mais, não era educado deixar um prato vazio na sala. Descuidada, a menina deixou escapar “espera mãe”, quase inaudível. Desejava apenas terminar de comer seu pedaço de cuca na companhia das visitas.

Mas foi atingida em cheio pelo olhar fuzilador da mãe, seguido de um sussurro nervoso “depois a gente conversa”. Rapidamente a pequena deixou seu pedaço de lado, levantou-se e foi cumprir a ordem, trazendo outro prato cheio de cuca. Depois disso não retornou mais à sala. Ao final da tarde, muito graciosamente, a mulher despediu os convidados. Percorri os pouquíssimos metros que separavam nossas casas quando ouvi seus gritos. Ela repreendia a filha por ter-lhe retrucado, desobedecendo na frente das visitas.

Quando a menina completou a maioridade já trabalhava fora. Aos finais de semana a mãe esperava que a filha ficasse em casa e fizesse todo o trabalho doméstico que se acumulara durante a semana. Mas a jovem, desobedecendo-a, saía para passear com o namorado. Perder o controle sobre a filha deixava a mulher cada vez mais amargurada.

Num sábado cinzento, enquanto a jovem menina preparava um canteiro na horta, a mãe parou ao seu lado com a máquina de cortar grama a postos. Exigia pressa, queria ver a grama cortada antes de a chuva começar. A moça preparava o canteiro calmamente e em absoluto silêncio. Ao plantar as últimas mudinhas trovejou e os primeiros pingos de chuva começaram a cair.

Irada, a mãe olhou para o belo canteiro de hortaliças e sibilou “tu plantou muito perto, não vai produzir nada”. A jovem, ignorando-a, começou a recolher suas ferramentas. Ofendida com o descaso, a mãe parou-se na frente dela, impedindo sua passagem. Os pingos de chuva desciam de sua testa enrugada enquanto gritava com a filha. Num ímpeto de raiva, a jovem bradou “chega”! Era sua demissão.

Petrificada, a mulher ouviu a filha anunciar que seu serviço de muleta acabava ali. Disse-o e não voltou atrás, para desespero da mãe, que não aceitava tal atitude de rebeldia. Tentou ainda, por alguns dias, colocar a filha nos eixos. Como não conseguiu foi falar com o namorado dela, derramando a ele todas as suas queixas. Esperava que o rapaz entendesse e assim, seriam dois contra um. Não funcionou. O rapaz não só defendeu a jovem como reforçou sua atitude. Empertigada, a mãe retirou-se, como um patrão ofendido pela causa ganha do empregado.

OBS: Crônica publicada originalmente na Revista Medium

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24/06/2019

Último Desejo
6/24/20190 Comentários
By The Death Bed, 1896 por Edvard Munch
By The Death Bed, 1896 por Edvard Munch

Meu gato contraiu a leucemia felina. Nos seus últimos dias projetava as costelas pra cima e pra baixo em busca de ar. Tentava comer, mas a comida não parava em seu estômago, então começou a recusá-la. Observando a situação degradante do animalzinho pensava em dar-lhe um golpe de misericórdia. Vê-lo morrendo de fome aos poucos já se tornara insuportável.

Na véspera de sua morte arrastou-se para dentro do canil da vizinha, onde a cachorra que quase o assassinara anos antes dormia tranquilamente. O considerei um ato suicida! Em vida fora um gato arredio. Não gostava de ser paparicado nem acariciado. Quando adoeceu, surpreendentemente, começou a procurar colo e carinho. Creio que eram seus últimos desejos.

Curiosamente essa situação lembrou-me do meu avô. Diagnosticado com algum problema no coração, tratou-se por mais de um ano. Para provocar a esposa, tomava seus medicamentos com um gole de Velho Barreiro[i]. Percebendo a piora constante, buscou nova opinião médica. O diagnóstico mudou para câncer de pulmão em estágio avançado.

O breve tratamento quimioterápico, que se revelou mais destrutivo que benéfico, deixou o velho de cama. Esforçava-se para conseguir respirar. Sempre fora magricela, mas atingiu seu auge durante a doença. Era um saco de pele e ossos, que uma tarde despencou da cama. Um doloroso gemido alertou a mim e minha mãe. O colocamos de volta. Por sorte, não quebrou nenhum osso.

Com a evolução da doença passou a ser alimentado por uma sonda. Apesar disso, pedia por um prato de comida. Queria sentir o gosto dos alimentos. Era doloroso para minha mãe negar o pedido, mas ele não podia. Engasgar-se-ia com a comida e com o catarro de seus pulmões, que estavam se decompondo.

Minha avó preparava mesas fartas. Arroz, feijão, carne de panela com muito molho, aipim frito, batatas cozidas, saladas diversas. Vez por outra se acrescentavam chucrute e linguiças cozidas. Em seguida as sobremesas. Sagu com vinho, pêssegos cozidos, doce de ameixas, compotas de quase todas as frutas existentes no pomar. Aos domingos tínhamos também “kartofellsalat”[ii] e cucas para o café da tarde.

Não creio que algum médico ou nutricionista indicasse a dieta. Mas havia algo especial. Ao meio dia todos deixavam de lado os seus afazeres. Quem estava na lavoura retornava. Quem trabalhava no galpão se dirigia à cozinha. Meu avô dependurava o chapéu atrás da porta. Os cães, que sempre o seguiam, deitavam-se na frente da casa, esperando-o. Todos sentavam nos grandes bancos de madeira feitos para aquela mesa de família.

O relacionamento dos meus avós era problemático. A verdade é que não dividiam a cama há muito tempo, mas preocupavam-se em manter as aparências. Quando meu avô desejava atingir a esposa, recusava a sobremesa. Almoçava e levantava-se da mesa, partindo. Ela entendia o gesto e ficava furiosa. No meio da tarde ouvia-se o tilintar de talheres. Alguém estava parado na frente da geladeira aberta. Era meu avô comendo sobremesa escondido.

Não sei se ele refletiu sobre suas atitudes em vida, pois num de seus últimos momentos de lucidez, conversou comigo. Recordo-me apenas de uma frase que ficou gravada em minha memória: “hoje eu tenho a comida que gostaria de comer, mas não posso comer”.

Alguém disse que perdemos a noção do sagrado. E as refeições são sagradas. Não deveriam ser cada vez mais rápidas e solitárias. Mal nutridos e inconscientes do momento presente perdemos a satisfação de compartilhar uma refeição, de sentir o sabor dos temperos, a textura dos alimentos. Hoje, frequentemente, desperdiçamos a oportunidade que para outros foi o último desejo não atendido.

[i] Velho Barreiro é uma marca de cachaça brasileira.

[ii] Kartofellsalat: salada de batatas com maionese, prato muito comum entre os descendentes de imigrantes alemães.

OBS: Crônica originalmente publicada na 12ª Edição da Revista LiteraLivre


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